Prof. AMR
UNIVALIPPCJ · 25180
Encontro 1 · 11/08/2026 · Produção e Aplicação do Direito na Era da IA

A condição onlife

Mestrado Doutorado

O ponto de partida da disciplina é filosófico. Antes de definir a inteligência artificial, descreve-se o mundo em que ela opera. Luciano Floridi dá a tal mundo o nome de onlife: nem analógico, nem digital.

O que é a condição onlife

Onlife é o neologismo com que Floridi [Oxford Internet Institute] nomeia a realidade hiperconectada na qual deixou de ser sensato perguntar se estamos online ou offline. O conceito nasceu da Onlife Initiative, grupo de quinze pesquisadores convocado pela DG Connect da Comissão Europeia e presidido por Floridi, reunindo antropologia, ciência cognitiva, computação, engenharia, Direito, neurociência, filosofia, ciência política, psicologia e sociologia. O manifesto foi lançado em 8 de fevereiro de 2013, em Bruxelas, e o livro saiu em acesso aberto pela Springer em 2015.

“…a nova experiência de uma realidade hiperconectada na qual já não é sensato perguntar se estamos online ou offline.”The Onlife Manifesto · tradução

A tese de fundo desloca o papel da tecnologia. As tecnologias da informação e comunicação não funcionam como meras ferramentas à disposição de um sujeito externo. Operam como forças que moldam o próprio ambiente e, com ele, quem o habita.

“As TIC não são meras ferramentas, e sim forças ambientais que afetam cada vez mais nossa autoconcepção, nossas interações, nossa metafísica e nossa agência.”Luciano Floridi, Introdução ao The Onlife Manifesto [2015] · tradução

Daí a tarefa filosófica proposta por Floridi. Quando a realidade muda rápido, o arcabouço conceitual herdado envelhece, e o pensamento precisa se atualizar em movimento, na imagem do autor, como quem constrói a jangada enquanto nada.

“Apreendemos a realidade por meio de conceitos; quando ela muda rápido e dramaticamente, como hoje por causa das TIC, ficamos conceitualmente desnorteados.”Floridi · tradução

A estrutura do Manifesto

O livro gravita em torno de um documento curto, o Manifesto, seguido de comentários e ensaios. Quatro seções organizam o argumento.

SeçãoTítuloDo que trata
§1Game Over for Modernity?Pressupostos da modernidade que travam a política num mundo hiperconectado.
§2In the Corner of Frankenstein and Big BrotherOs medos do excesso e da falta de controle, e as novas vulnerabilidades.
§3Dualism is Dead! Long Live Dualities!Pares duais no lugar de dicotomias opositivas.
§4Proposals to Better Serve PoliciesO eu relacional, a sociedade letrada e o cuidado com a atenção.

§1  “Game Over for Modernity?”

Floridi lista pressupostos da modernidade que emperram a ação política na realidade hiperconectada: a natureza tomada como reservatório passivo e separada do artefato, ilusão desfeita pelas TIC; a razão desencarnada, que pensa sujeitos autônomos isolados no lugar de seres sociais; as metáforas mecânicas, que elevam a força, a causação e sobretudo o controle a valores primários; e o Estado westfaliano de poder territorial, desestabilizado por sistemas multiagente e por fluxos transnacionais.

A responsabilidade torna-se distribuída: quanto mais avançam as TIC, mais difícil localizar fontes específicas de responsabilidade.The Onlife Manifesto, §1 · tradução

§2  “In the Corner of Frankenstein and Big Brother”

A obsessão por controle ata conhecimento e poder, entre o medo do excesso, à custa da liberdade, e o medo da falta, à custa da segurança. A vigilância deixa de ser só vertical: a souveillance, o controle social mútuo, corrói a esfera pública, e o ciberbullying aparece como sintoma. A abundância informacional gera sobrecarga cognitiva, distração e um presente esquecido, ao lado de novas vulnerabilidades das infraestruturas informacionais.

“Responsabilidades distribuídas e emaranhadas não são licença para agir de modo irresponsável.”The Onlife Manifesto, §2 · tradução

§3  “O dualismo está morto! Vida longa às dualidades!”

Floridi propõe enfrentar os desafios com pares duais complementares no lugar de dicotomias opositivas.

Par dualNo lugar da dicotomia rígida
Controle e complexidaderecuperar o controle de forma compulsiva é ilusório.
Kosmos e taxisordens espontâneas e planejamento [Hayek] coexistem.
Público e privadonão como espaços opostos, mas complementares.
“Para além das dualidades. Vida longa à pluralidade.”Mireille Hildebrandt, comentário ao Manifesto · tradução

§4  Três propostas para as políticas

  1. O eu relacional. O self é livre e social ao mesmo tempo. A liberdade não ocorre no vácuo, e sim num espaço de afordâncias e restrições.
  2. A sociedade letrada. Reconhecer como ações, percepções e moral se entrelaçam com as tecnologias, na tarefa de construir a jangada enquanto se nada.
  3. O cuidado com a atenção. A atenção é ativo finito, precioso e raro, ligado à privacidade e à integridade, condição de autonomia e de pluralidade.
“Os nossos selfs são, ao mesmo tempo, livres e sociais… os seres humanos são ‘livres com elasticidade’.”The Onlife Manifesto, §4.2 · tradução

As quatro transformações

O núcleo do manifesto está em quatro deslocamentos que a revolução informacional impõe à organização do mundo, cada um com efeito próprio sobre o Direito.

EixoDeslocamentoImplicação jurídica
iRealidade e virtualidade: do dualismo à indistinção.Onde traçar a linha ao tipificar condutas? A prova digital é real sem suporte tangível; flagrante, lugar e tempo do crime se reconfiguram.
iiHumano, máquina e natureza: de fronteiras nítidas à interação.Artefatos com agência antecipam o debate sobre IA e responsabilidade distribuída; importa o tipo de interação.
iiiEscassez e abundância: da escassez à abundância informacional.O gargalo passa a ser a atenção, não o conhecimento; a economia da atenção incide sobre prova, decisão e juízo.
ivEntidades e interações: das coisas aos processos e às redes.Prova, processo e decisão se pensam como processos relacionais e em rede, não como objetos isolados e estáveis.
“O dualismo está morto! Vida longa às dualidades!”The Onlife Manifesto, §3 · tradução

A economia da atenção

Na abundância informacional, o gargalo deixa de ser o conhecimento e passa a ser a capacidade de atenção, cujo limite último é o tempo. A intuição é antiga e Floridi a retoma.

“Uma riqueza de informação cria uma pobreza de atenção.”Herbert Simon, 1971 · tradução
“O que é, em última instância, finito, precioso, não renovável e impartilhável é, na verdade, o tempo.”Luciano Floridi, comentário ao Manifesto · tradução

O manifesto extrai daí uma recomendação e uma consequência jurídica. A recomendação: dedicar à própria atenção mais atenção coletiva [§4.7]. A consequência: no processo, a pergunta passa a ser o que merece foco probatório, e o letramento digital vira defesa contra a captura da atenção.

Infosfera, inforgs e hiperhistória

Floridi chama de infosfera o ambiente informacional que engloba todos os agentes e suas interações. No ambiente informacional, o ser humano se descreve como organismo informacional, um inforg, que convive com outros agentes informacionais.

“Somos organismos informacionais [inforgs] que vivem e interagem com outros agentes informacionais na infosfera.”Floridi · tradução

Ao estágio em que sociedades inteiras dependem das TIC para existir e prosperar, Floridi dá o nome de hiperhistória.

Pré-história
sociedades sem TIC
História
TIC registram e transmitem dados
Hiperhistória
sociedades dependem do processamento

A hiperhistória é a quarta revolução na autoimagem humana, na sequência de Copérnico, Darwin e Freud.

“Depois de Copérnico, Darwin e Freud, as TIC, isto é, Turing, lançam nova luz sobre o nosso autoentendimento.”Floridi · tradução

Do manifesto ao Direito: o processo penal onlife

A moldura filosófica atinge diretamente a teoria da prova. Como já sustentei [MORAIS DA ROSA, Alexandre. O Novo Processo Penal Onlife ou Híbrido: analógico e digital. Consultor Jurídico, 2024], o processo penal é híbrido, nem puramente analógico, nem puramente digital, e a prova nasce, circula e se degrada na infosfera. Três frentes decorrem daí: a prova digital e a cadeia de custódia [arts. 158-A a 158-F do CPP]; o viés de automação e a degradação temporal; e a reprodutibilidade sem perda, que transfere a integridade do suporte físico para o hash e os metadados. No sentido analógico, já não há um “original”.

“Uma ontologia das interações substitui uma ontologia das coisas.”Floridi · tradução

Bibliografia do encontro

FLORIDI, Luciano [org.]. The Onlife Manifesto: Being Human in a Hyperconnected Era. Cham: Springer, 2015 [acesso aberto]. Disponível em: library.oapen.org/handle/20.500.12657/28025.
MORAIS DA ROSA, Alexandre. O Novo Processo Penal Onlife ou Híbrido: analógico e digital. Consultor Jurídico, 29 mar. 2024. Disponível em: conjur.com.br.
SIMON, Herbert A. Designing Organizations for an Information-Rich World. In: GREENBERGER, Martin [org.]. Computers, Communications, and the Public Interest. Baltimore: Johns Hopkins Press, 1971.
HILDEBRANDT, Mireille. Comentário. In: FLORIDI, Luciano [org.]. The Onlife Manifesto. Cham: Springer, 2015.
Laboratório digital: os exercícios do encontro [analógico e digital, letramento digital, tradutor de binário, conversor de unidades de dados] ficam no site www.profamr.eu, com o link específico de cada tema inserido aqui quando o material estiver publicado.